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O jogo que a canetada não resolve

Foto do escritor: Igor Schulenburg
Igor Schulenburg
27 de set.
3 min de leitura

Outro dia, ouvindo um podcast, escutei uma ideia que ficou comigo desde então: o brasileiro nunca aprendeu a apostar por diversão. Aposta como quem procura fonte de renda extra. E isso nada tem a ver com o vício nas apostas. Deixo claro logo aqui: sou contra as bets. Elas nunca deveriam ter chegado aonde chegaram. Elas deviam caminhar ao lado do futebol. Ao lado e não se tornando quase uma coisa só. Mas a frase do podcast me fez pensar numa coisa que nenhuma canetada presidencial resolve de uma hora para outra: a forma como a gente se relaciona com o jogo. Os números ajudam a enxergar.

nenhuma canetada ensina alguém a se conscientizar, a apostar por diversão. É o problema sendo varrido para baixo do tapete, como o Brasil sabe fazer direitinho.

Numa pesquisa Datafolha divulgada em abril deste ano, 46% dos apostadores disseram apostar para conseguir renda extra e pagar as contas. Em agosto de 2024, o Banco Central já tinha medido que cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família mandaram R$ 3 bilhões para casas de apostas via Pix, num único mês. Gasto médio de R$ 100. Setenta por cento eram chefes de família. Para quem vive de benefício, cem reais fazem falta no fim do mês. É difícil acreditar que esse dinheiro saia do bolso só pela graça do jogo.


E o Estado entrou nesse jogo de olhos abertos. Regulamentou as apostas, cobrou R$ 30 milhões por licença de cinco anos e viu 85 empresas pagarem a conta. Assistiu ao nome das bets ocupar o peito da camisa da maioria dos clubes da Série A e batizar o Brasileirão, a Copa do Brasil e até mesmo os campeonatos estaduais.


Na sexta-feira, 25 de setembro, uma medida provisória mandou tudo isso sumir. Os depósitos foram proibidos no mesmo dia. As licenças acabam em 30 dias, sem devolução do que foi pago. As marcas precisam sair das camisas, das placas e dos campeonatos até 5 de outubro. A eleição é no dia 4. É simples, alguém vai pagar a conta e isso vai pra justiça.


O Brasil já viu esse filme. Em 30 de abril de 1946, três meses depois de tomar posse, o presidente Eurico Gaspar Dutra assinou o decreto-lei que proibiu os jogos de azar em todo o país. Mais de 70 cassinos foram atingidos. No Rio, eles nem abriram naquele dia. Em Petrópolis, as mesas do Quitandinha começaram a funcionar às três da tarde e pararam cerca de uma hora depois, por ordem de um telefonema vindo do Rio.


O que mais me pegou foi um relato publicado nos jornais da época. Um funcionário do cassino do Copacabana Palace contou ao Diário de Notícias que via chefes de família, "na esperança de aumentar seus magros salários", perderem no pano verde o pouco que traziam. Há oitenta anos, alguém já tinha visto a renda extra sentada à mesa de jogo. Estima-se que a proibição tenha deixado 55 mil pessoas sem emprego, de garçons a crupiês. Quase todos os empresários faliram, boa parte dos trabalhadores nunca foi indenizada, e o jogo seguiu existindo, agora escondido, em cassinos clandestinos.


O mundo mostra outro caminho. Em abril de 2023, os clubes da Premier League decidiram tirar as casas de apostas da frente das camisas e deram três temporadas para se ajustar: a regra só passou a valer a partir do fim da temporada 2025/26. A Itália proibiu a publicidade em 2018 e deixou os contratos de patrocínio já assinados correrem até, no máximo, julho de 2019. A Espanha fez o mesmo em novembro de 2020 e deu prazo até agosto de 2021.


Em nenhum desses três países o jogo foi proibido. Eles restringiram a propaganda e deram tempo para quem dependia dela se reorganizar.


Aqui, o prazo é de dez dias.


Volto à frase do podcast. A medida provisória fecha os sites, tira as marcas das camisas e cassa as licenças. Só que nenhuma canetada ensina alguém a se conscientizar, a apostar por diversão. É o problema sendo varrido para baixo do tapete, como o Brasil sabe fazer direitinho. Quem via nas apostas a renda extra vai continuar jogando, agora num site sem licença, sem imposto e sem ninguém para responder quando a conta não fechar.


Em 1946 foi assim. As portas dos cassinos se fecharam, e o jogo continuou girando no escuro.

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