A coreografia do enquadramento (para o TikTok)


A imagem que melhor resume a noite de domingo na Band não tem áudio. Enquanto um candidato falava olhando para a câmera, o outro caminhava estrategicamente lá no fundo do estúdio, medindo os passos no carpete só para continuar dentro do enquadramento. Ele não estava ali ouvindo o adversário para rebater uma ideia ou apontar um furo no orçamento. Estava apenas fazendo cara de deboche, balançando a cabeça e esperando a vez de soltar a próxima frase de efeito. No fim da noite, o mediador precisou implorar silêncio para a plateia de convidados no estúdio em respeito a quem estava em casa tentando entender alguma coisa.
A verdade é que ninguém ali estava conversando com quem estava sentado no sofá da sala às nove da noite. O debate de televisão aberta virou apenas uma linha de montagem terceirizada para a tela vertical do celular no dia seguinte.
Quando colocam dois candidatos frente a frente com quinze minutos de tempo livre, a desculpa oficial é dar fluidez para aprofundar propostas. Na prática, vira um jogo de empurra onde o objetivo é fazer o outro perder a cabeça e gastar o próprio relógio se defendendo de acusação moral. Projeto de país exige sujeito, verbo, predicado e conta fechada — e isso dá trabalho, é comprido demais, não cabe num corte de vinte segundos com trilha sonora de suspense no Instagram. Já a piada sobre esconder a carteira ou o grito de "quero distância" cabem direitinho.
Dá uma desesperança funda olhar para os dois únicos nomes possíveis na urna e perceber que o futuro de duzentos milhões de pessoas foi reduzido a um tribunal de pequenas causas. Zero conversa sobre o básico que faz a vida andar na segunda-feira de manhã; cem por cento de retrovisor, rancor e dedo na cara.
Seria muito confortável desligar a televisão culpando apenas os dois ou a emissora pelo cardápio vazio. Mas a pergunta que incomoda de verdade aparece quando a gente olha para o espelho da sala: e se eles tivessem feito diferente? E se os dois sentassem ali, em silêncio, com um bloco de notas e uma planilha na mão, passando duas horas destrinchando saneamento básico, juros e formação de professores sem levantar a voz nenhuma vez?
O programa de domingo bateu recorde de audiência justamente porque teve sangue na arena. O desespero real não é só descobrir que os candidatos não têm nada para apresentar. É desconfiar que eles só entram em campo para fazer cera e cavar falta porque já entenderam que a arquibancada perdeu a paciência para ver noventa minutos de bola rolando. A gente reclama do circo, mas se não tiver grito no picadeiro, a gente muda de canal.




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