A hora que sobrava


Seis da tarde, verão, e o sol ainda longe de ir embora. Você saía do trabalho e o dia não tinha acabado. Tinha luz de sobra, daquela que não tem pressa nenhuma. E a pergunta aparecia sozinha: vamos tomar uma? Era isso o horário de verão. Uma hora a mais de dia, entregue de presente no fim do expediente.
O bar enchia com o céu ainda claro. Mesa na calçada, cerveja suando, gente rindo alto sem olhar o relógio. Quem não ia pro bar ia pra rua. A caminhada do fim da tarde que virava fim de noite, o vizinho no portão, a criançada voltando suada às oito e meia e ninguém com coragem de chamar pra dentro com o céu daquele jeito, meio laranja, meio azul. Oito e meia da noite com cara de fim de tarde. A gente chegava em casa e ainda dava tempo de viver mais um pouco.
O Brasil adiantou os relógios pela primeira vez em 3 de outubro de 1931, pelo Decreto nº 20.466, segundo o Ministério de Minas e Energia. Em 25 de abril de 2019, um decreto de três artigos encerrou tudo. O primeiro cabe numa linha: "Fica encerrada a hora de verão no território nacional." O motivo oficial está na página do MME. A medida tinha deixado de produzir a economia de energia esperada. Com a mudança nos hábitos de consumo e o uso maior de equipamentos para enfrentar o calor, o pico do dia passou para a tarde..
Só que ninguém marcava um encontro pensando em demanda máxima do sistema elétrico. A gente usava aquela hora para viver, e isso nunca entrou em planilha nenhuma. Era um convite pra sair. Ninguém mandava, ninguém organizava, não precisava de grupo no WhatsApp. O sol ficava, e a gente ficava junto com ele. O colega que nunca aparecia no happy hour aparecia. O casal dava a volta na praça. O pai levava o filho na pracinha depois do trabalho, coisa que no inverno não dava. Teve quem odiasse, claro. Acordar no escuro, o corpo levando dias para se acertar. Mas até a reclamação fazia parte do ritual de todo fim de ano.
O curioso é que o próprio governo reconhece, do jeito seco dos documentos, que o assunto vai além da energia. No relatório de monitoramento de 31 de agosto de 2026, o MME escreve que a decisão envolve outros setores, "haja vista seus impactos em várias áreas da sociedade".
Para este verão, nada muda. O mesmo relatório diz que os estudos do ONS "não indicam a pertinência de implementação do Horário de Verão em 2026/2027".
Do que a gente sente falta, afinal? Da hora a mais ou de quem a gente era naquela hora?




Comentários