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A última primeira vez

Foto do escritor: Igor Schulenburg
Igor Schulenburg
26 de set.
2 min de leitura

O calendário vai continuar correndo do mesmo jeito. A diferença está em quanto dele vai sobrar quando você olhar pra trás. O básico a gente esquece: de se manter ativo, perto de pessoas e com a cabeça estimulada.

Todo ano, a mesma coisa acontece. Alguém dá uma olhada no calendário, arregala os olhos e exclama: “Já é fim de setembro? O Natal está chegando!”. E, como se fosse um coro, todos ao redor concordam, porque todos compartilham da mesma sensação. Na infância era o contrário. As férias pareciam não acabar. Um mês durava uma eternidade, e esperar o aniversário era um exercício de paciência quase impossível.


Por muito tempo, a explicação mais aceita era que medimos o tempo olhando para trás, avaliando a quantidade de novas experiências que foram armazenadas. A autora britânica Claudia Hammond, que dedicou um livro inteiro à percepção do tempo, cunhou o termo “paradoxo das férias” para descrever esse fenômeno. Uma viagem de fim de semana parece passar voando enquanto acontece, mas, na lembrança, parece ter durado muito mais do que um fim de semana comum.


Na infância, cada experiência é inédita: o primeiro dia de aula, o primeiro mergulho no mar, o primeiro gol, a primeira bronca séria. Tudo é novo e intenso, o que faz com que os verões pareçam eternos. Já na vida adulta, a frase “quanto mais coisa pra fazer, mais rápido passa o tempo” se torna realidade. O psicólogo Marc Wittmann, que estuda a "percepção do tempo" na Alemanha há mais de vinte anos, identificou a "pressão do tempo" e a "rotina" como fatores que contribuem para a sensação de que a última década passou num piscar de olhos. Curiosamente, suas pesquisas revelam que a percepção do tempo é semelhante para adolescentes e idosos quando se trata de semanas, meses e até anos. O que realmente encolhe com a idade é a percepção da década, quando a olhamos de longe.


O calendário vai continuar correndo do mesmo jeito. A diferença está em quanto dele vai sobrar quando você olhar pra trás. O básico a gente esquece: de se manter ativo, perto de pessoas e com a cabeça estimulada

Recentemente, Wittmann, junto com pesquisadoras da Universidade Sapienza, em Roma, decidiu testar a validade da explicação das lembranças. Para sua surpresa, descobriram que pessoas que sentem que a década passa voando não têm menos lembranças importantes. Na verdade, os mais velhos descreveram suas lembranças como mais vívidas e significativas do que as dos jovens. O que realmente falta são os registros dos pequenos detalhes do dia a dia que não se tornaram eventos históricos, mas que dão profundidade à nossa percepção do tempo.


A terça-feira passou na velocidade de sempre, igual à segunda, à quarta, e à terça da semana anterior. Pouco dela ficou gravado, com muita coisa pra fazer e pouca coisa nova pra lembrar. Voltar a ter oito anos não é possível, nem necessário. Mas podemos tentar perceber algumas primeiras vezes. Um caminho diferente pro trabalho, um restaurante novo, uma música fora da playlist, uma conversa diferente. O básico a gente esquece: se manter ativo, perto de pessoas e com a cabeça estimulada ajuda a desacelerar o tempo.


O calendário vai continuar correndo do mesmo jeito. A diferença está em quanto dele vai sobrar quando você olhar pra trás.


Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?

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