O verdadeiro drible não foi com a bola
- Igor Schulenburg

- 23 de jun.
- 3 min de leitura

Dezesseis milhões e cem mil aparelhos ligados ao mesmo tempo. Foi o que a CazéTV alcançou no YouTube durante Brasil 3 a 0 Haiti — um recorde mundial de audiência simultânea na plataforma. Duas semanas antes, na estreia contra o Marrocos, já tinham sido 12,7 milhões. O número cresceu quase 30% de um jogo para o outro. Guarde os números, mas não se prenda a eles. O que importa é o que está por trás.
Pela primeira vez desde 1970, a TV Globo não detém os direitos de transmissão da Copa do Mundo inteira no Brasil. Quem comprou os direitos dos 104 jogos foi a CazéTV — a operação digital de Casimiro Miguel, que transmite tudo de graça no YouTube. A Globo ficou com um pacote de pouco mais de meio torneio e nenhum jogo exclusivo. O SBT, com uma fatia menor ainda. E o mais interessante é como isso aconteceu.
A CazéTV não tirou a Copa da Globo num embate de forças. Ela entrou por uma brecha que a televisão aberta subestimou: a digital. Nasceu improvisada na Copa de 2022, e chegou a 2026 negociando cifras. O drible não foi de bola. Foi de modelo. Aqui é onde eu preciso confessar uma coisa.
Eu não era muito fã da CazéTV. A tentativa de linguagem até era legal, mas os exageros me afastavam. Claro, tentativa e erro. Eles foram acertando e errando até achar o caminho real. E é justamente por isso que o que vou dizer agora tem algum peso: eu mudei completamente de opinião. Eu estou vendo a Copa 100% por lá. Todos os dias, todos os jogos, o dia inteiro. E olha, a cobertura está sensacional.
A estrutura é enorme, com equipes espalhadas pelos lugares. Ainda tem exageros? Tem. Mas tem muita informação, como deve ser. Os narradores são bons, o clima da narração é ótimo, sem puxa-saquismos, bordões que irritam. Os comentaristas? Têm opinião, se posicionam, divergem sem aquela necessidade de transformar tudo em chacota. Nada da "Central do Apito" e seus ex-árbitros falando mal dos ex-colegas de profissão. Nada do "jornalismo risadinha" que a Globo pratica há anos e que, confesso, me irrita profundamente. E é, sem dúvida, um dos pontos mais patéticos e que afastou o jornalista por tras dessas linhas, do jornalismo e da própria emissora.

É outra forma de assistir. E aí mora o ponto que me interessa de verdade.
Na Teoria da Comunicação, Marshall McLuhan dizia que o meio é a mensagem. A forma como uma informação chega até você transforma a própria informação — às vezes mais do que o conteúdo em si. É isso que está acontecendo com a Copa. Não mudou só o canal. Mudou a experiência inteira.
Antes, o torcedor perguntava "passa só na Globo?". Hoje ele diz: "peraí, deixa eu ver onde vai passar, se vai passar no YouTube ou em algum streaming". A transmissão deixou de ser goela a baixo — a emissora fala, você escuta — e virou escolha. Gente comentando ao vivo, reagindo junto, rindo junto, brigando junto. E isso aproxima. É a risada, não a "risadinha".
A Globo não perdeu a maior fatia da Copa por falta de dinheiro ou de competência. Ela perdeu porque continuou respondendo a uma pergunta que o público parou de fazer. E a CazéTV foi lá e percebeu que existia uma pergunta nova. O futebol é o mesmo. A bola é a mesma. Mas agora a gente escolhe.
E meus amigos, quem não percebe que isso mudou, em algum momento pode ficar falando sozinho.


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