O algoritmo para zumbis


Uma empresa chamada "fal" pegou um modelo de geração de vídeo de código aberto e passou meses otimizando a velocidade dele. O resultado saiu semana passada: cinco segundos de vídeo, com áudio sincronizado, prontos em menos de três segundos. Cerca de 35 vezes mais rápido que a versão original.
Traduzindo o que isso significa: a máquina agora produz vídeo mais rápido do que uma pessoa consegue assistir. Uma barreira caiu, e caiu sem alarde nenhum, num anúncio técnico que a maioria das pessoas nunca vai ler. No dia seguinte, alguém já tinha feito alguma coisa com ela.
Um empreendedor holandês chamado Pieter Levels ligou o modelo a uma transmissão que não termina nunca. Chamou de Infinite Slop, algo como "gororoba infinita". Funciona assim: tem um chat do lado, as pessoas digitam o que quiserem, e o sistema gera o próximo trecho tentando emendar no anterior. Um canal de televisão que se inventa sozinho, para sempre, sem roteiro, sem começo e sem fim. Trinta e sete mil pessoas assistiram no primeiro dia. É aqui que o assunto deixa de ser tecnologia.
Trinta e sete mil pessoas ficaram olhando uma coisa que não tem história, não tem personagem, não vai a lugar nenhum e nunca vai acabar. Ninguém escolheu assistir àquilo, no sentido em que a gente escolhe um filme. O negócio simplesmente estava acontecendo, e as pessoas ficaram.
Um canal de tecnologia batizou o fenômeno de "algoritmo mortal". Prefiro olhar pro outro lado da tela. Chamo de zumbi quem está sentado ali. Zumbi que parou de decidir. Não odeia ninguém, não quer nada, não tem plano. Só continua. A máquina gera sem querer nada, e o espectador assiste sem querer nada. Os dois fazendo exatamente a mesma coisa, que é seguir em frente sem motivo nenhum.
Faço questão de tirar a máquina do banco dos réus, porque ela não tem culpa nisso. Um modelo de vídeo faz o que foi construído pra fazer, e faz muito bem. A parte responsável dessa história sempre foi gente. O próprio Levels escreveu que assistir aquilo era estranhamente e assustadoramente viciante, e distópico, e que achava interessante fazer o experimento cedo pra ver onde ia dar. E ele fez, patrocinado pela empresa que construiu o modelo. Vale registrar também que a Twitch e o YouTube tiraram a "fal" do ar quando ela tentou transmitir por lá, e a empresa acabou montando o próprio serviço. Nem as plataformas de vídeo quiseram aquilo dentro de casa.
Mas a outra parte responsável é quem senta e fica. E isso é o mais desconfortável de admitir. Passamos trinta anos imaginando que a ameaça chegaria com cara de Exterminador do Futuro, uma máquina decidida a nos eliminar. Ela chegou em forma de vídeo curto, engraçadinho, sem consequência nenhuma, que a gente consome de bom grado até o polegar cansar.
A televisão, com todos os defeitos dela, tinha o dia seguinte. Você assistia a alguma coisa na noite anterior e no outro dia tinha com quem falar sobre aquilo. O elevador, a padaria, o intervalo do trabalho. O programa era ruim às vezes, mas era o mesmo programa ruim pra todo mundo, e isso criava conversa, discussão, memória em comum.
Um vídeo gerado sob medida pra uma pessoa não tem dia seguinte. Não dá pra comentar com ninguém, porque ninguém mais viu aquilo. Não vira lembrança, não vira piada interna, não vira referência. Some no momento em que termina, e o próximo já está começando. A gente não está trocando conteúdo bom por conteúdo ruim. Está trocando conteúdo por nada. Por um vácuo.
E aí fica a pergunta que eu não consigo responder direito: quantas horas dessa semana você passou vendo alguma coisa que não teria como contar pra ninguém depois?




Comentários