Intolerância virou clima natural


Um menino de oito anos foi ao estádio no domingo com um cartaz. Estava escrito que ele era muito corintiano, mas fã do Neymar. Levantou o cartaz, o jogador viu, e no fim da partida entregou a camisa a ele. O garoto chorou. Minutos depois, precisou sair da Neo Química Arena escoltado por policiais e seguranças, junto com os pais, porque parte da torcida em volta começou a hostilizá-lo. Antes de sair, ele posou para uma foto segurando a camisa do Neymar ao lado de uma bandeira do Corinthians. Gritou "vai Corinthians" ao deixar a arquibancada. Continuava sendo o que era quando entrou.
Tem vezes que dá vontade de parar o mundo pra eu descer. Desde quando uma criança pedir a camisa de um jogador é ofensa? Seja lá quem time for. A criança não inventou nada. Pedir camisa de ídolo é das coisas mais antigas que existem dentro de um estádio, quase um ritual. O comportamento é o de sempre. O que mudou foi o ambiente que recebeu esse comportamento e o próprio ser humano.
Em abril de 2016, depois de um clássico entre Palmeiras e Corinthians que terminou com uma pessoa morta, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, junto com o Ministério Público e a Federação Paulista, determinou que os clássicos do estado passariam a ter torcida única. A medida valeria até dezembro daquele ano. Estamos em agosto de 2026 e ela continua valendo. Foram quase duzentos clássicos disputados nesse regime.
Isso significa que existe hoje um torcedor de vinte anos que nunca dividiu uma arquibancada com o rival. Nunca ouviu o grito do outro lado subir enquanto o dele descia. Nunca precisou passar por um cara de camisa diferente na fila do banheiro e simplesmente seguir andando. Convivência que ninguém pratica é convivência que ninguém aprende.
O jornalista Alexandre Barneschi, que escreveu um livro inteiro sobre o torcedor visitante, disse isso ao Lance de forma direta: essa geração ficou mais intolerante e mais incapaz de conviver com o contraditório, e o torcedor desaprendeu a conviver com o oposto. Quando eu li a frase, pensei no menino saindo escoltado com a bandeira do próprio time na mão.
No Rio a coisa funciona diferente. O regulamento do Carioca prevê clássico com metade da arquibancada para cada torcida, e em competições nacionais os clubes negociam entre si, às vezes meio a meio, às vezes com uma fatia menor pro visitante. A briga por lá é outra, mando de campo, estádio, quem joga onde, e essa é uma novela à parte. Mas a criança que cresce indo ao Maracanã aprende cedo uma coisa simples: o torcedor do outro time está ali, a alguns metros, e não é um inimigo. É um vizinho de arquibancada.
Preciso ser justo com o outro lado do argumento, porque ele existe e é sério. Antes de 2016, quase quatro em cada dez clássicos paulistas registravam episódios de violência associados à partida. A medida foi criada para parar de contar óbitos, e nisso ela funcionou. O Ministério Público de São Paulo diz que não há perspectiva nenhuma de mudança, e cita justamente esse resultado. Famílias voltaram aos estádios porque pararam de temer o trajeto.
Então não estamos diante de uma bobagem burocrática. Estamos diante de uma escolha entre dois males, feita numa emergência real, que se acomodou e virou permanente. O primeiro mal era visível na hora, com nome e sobrenome nas páginas policiais. O segundo demorou dez anos para aparecer, e apareceu na forma de adultos xingando um menino de oito anos por causa de uma camisa.
Depois do episódio, o Corinthians e a Gaviões da Fiel publicaram notas de repúdio. A nota da organizada diz, no meio do texto, que cabe aos pais orientar crianças e adolescentes sobre comportamentos adequados em ambientes esportivos.
Essa frase é o retrato do problema inteiro.
Não havia comportamento a ser orientado. O menino pediu uma camisa. Sugerir que a família deveria tê-lo preparado melhor é aceitar que o ambiente é assim mesmo, que a intolerância virou clima natural do lugar, e que cabe a cada um se proteger dela por conta própria. É pedir que a criança se adapte ao estádio, quando o estádio é que deveria ser um lugar onde criança cabe.
Quem tem que aprender a se comportar não é quem tem oito anos.
Em que momento a gente decidiu que ensinar convivência era menos importante do que evitar o encontro?


Comentários