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Eles não jogam só futebol

  • Foto do escritor: Igor Schulenburg
    Igor Schulenburg
  • 17 de jul.
  • 4 min de leitura
A Argentina não joga só futebol. Nunca jogou. O hino do vestiário deles mistura Malvinas, Maradona e Messi na mesma estrofe. A vice-presidente do país chamou os ingleses de "piratas usurpadores" na véspera.

A FIFA proibiu. Avisou antes do jogo: nada de bandeira, faixa ou camiseta com referência às Malvinas dentro do estádio. Sabendo que historicamente esse confronto extrapola as quatro linhas, até porque nem começou dentro delas. Material político, vetado pelo Código de Conduta. A ministra da Segurança argentina confirmou a orientação publicamente.


A Argentina venceu a Inglaterra de virada, e Giovani Lo Celso abriu no gramado, diante do mundo, uma faixa: Las Malvinas son argentinas. Eles sabiam da proibição. Sabiam da multa que a mesma faixa rendeu em 2014. Fizeram assim mesmo. E é por aí que esse texto começa, porque essa cena explica o que aconteceu em campo. É por isso que trago mais um texto sobre a Copa do Mundo aqui pro blog. Transcende. Vai muito além.


A Argentina não joga só futebol. Nunca jogou. O hino do vestiário deles mistura Malvinas, Maradona e Messi na mesma estrofe. A vice-presidente do país chamou os ingleses de "piratas usurpadores" na véspera. Os jogadores berraram o hino como quem vai pra outra coisa que não um jogo. O técnico Scaloni pediu calma, disse que era "apenas mais um jogo" — e foi desobedecido pelos próprios jogadores, que depois do apito cantaram um minuto de silêncio para uma Inglaterra "que está morta". Concorde ou não com a mistura, uma coisa é inegável: aquele time joga por algo maior do que ele. E time que joga por algo maior não aceita perder.


A Inglaterra fez 1 a 0 e recuou. Mas não vamos analisar, aqui nesse espaço, a questão da postura inglesa. A Argentina veio se arrastando a Copa inteira — ganhando no sofrimento — virou o jogo em sete minutos. Enzo aos 40 do segundo tempo. Lautaro nos acréscimos. Um time que se recusa a ser eliminado. Tem 19 gols na competição e 9 foram marcados depois dos 30 minutos do segundo tempo. Isso sem contar os marcados na prorrogação. Estão lá. Segunda final consecutiva. A um jogo do tetra. E aqui entra o desconforto que ninguém quer nomear.


Todo brasileiro que assistiu àquela semifinal sentiu a mesma coisa, mesmo os que não admitem: era ali que a gente queria estar. Naquele nível de entrega, naquela fome, naquela vontade. A Argentina que quer tanto a bola, vai decidir o título no MetLife Stadium — o mesmo gramado onde, dias antes, o Brasil foi eliminado dando a bola pro adversário. Assim como fez o time inglês.


O vizinho vai jogar a final da Copa no palco do nosso velório. E talvez seja isso que precise acontecer. Talvez a Argentina precise ser tetra pro Brasil acordar. Porque o Brasil é penta — e dorme sobre essas cinco estrelas desde 2002, como quem acha que passado paga conta. Se o rival emendar o segundo título seguido e chegar a uma estrela de distância, quem sabe a ficha caia: tradição não defende ninguém. O que defende é a fome, a vontade, e um grupo fechado jogando todo em função de um extraterrestre que aos 39 anos faz a melhor Copa de todas com 8 gols e 4 assistências. O cara quase quarentão, participou de 12 dos 19 gols da equipe. Destruiu a Inglaterra. Assim como foi o melhor em campo em praticamente todos os jogos em que atuou.


Mas, vamos lá! Em vez de encarar esse incômodo do Tetra dos hermanos, o brasileiro essa semana achou um caminho mais confortável. Passou a dizer que vai torcer contra a Argentina "porque argentino é racista". E sendo bem direto: esse argumento é raso, pífio e vil. Não porque o racismo argentino não exista. Existe, é documentado, é grave, e deve ser combatido — sempre. O que incomoda é a desonestidade desse movimento. O racismo na Argentina só virou argumento na boca de alguns torcedores, quando passou a servir de pretexto para a rivalidade. É a mesma torcida que canta “Maradona cheirador” e acha que, com isso, está autorizada a posar de guardiã moral. Benzadeus! Porque o brasileiro que aponta o dedo pro racismo do vizinho vive num país profundamente racista. O mundo inteiro é racista e xenofóbico — a diferença é o quanto cada sociedade admite e enfrenta isso. Usar uma pauta gravíssima como munição de torcida não rebaixa o rival. Rebaixa a pauta. Transforma uma luta séria em provocação de arquibancada.


O motor real desse discurso não é consciência. É ressentimento. É a incapacidade de suportar ver o vizinho ocupar um lugar que muita gente gostaria de chamar de seu por direito, mas nunca conquistou na prática. E como admitir essa frustração exige honestidade, o sujeito prefere fantasiá-la de virtude. Aí veste a indignação como se fosse princípio, repete um argumento qualquer, e pronto. Até porque hoje em dia todo mundo precisa falar alguma coisa de qualquer jeito. Os famosos especialistas de coisa nenhuma.


Domingo, a Argentina joga a final. Torça a favor, torça contra, não torça — todas as opções são legítimas. Rivalidade faz parte, e sem ela, não existe futebol. Só não terceirize pra uma causa séria o trabalho de justificar o seu incômodo. O incômodo é nosso. E ele tem nome: cinco estrelas paradas no tempo, olhando o vizinho costurar a quarta.

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© 2026 Igor Schulenburg. Todos os direitos reservados.


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