A prancheta do menino jurado
- Igor Schulenburg

- 9 de fev.
- 2 min de leitura

Enquanto outras crianças esperavam o carnaval pra se fantasiar de super-herói, eu esperava pelas notas. Isso mesmo: nota de samba-enredo, de alegoria, de evolução. Desde os meus oito, nove anos de idade, eu virava as noites de folia com uma prancheta no colo, igualzinho a um jurado— só que sem terno, sem credencial, e com muito mais paixão.
Era sempre o mesmo ritual. Eu pegava uma folha em branco, régua, caneta e começava a montar minha planilha à mão. Linha por linha, coluna por coluna: escola, quesito, nota, observações. Se alguém visse, acharia que era um monte de rabisco. E convenhamos, era mesmo! Mas ao mesmo tempo, pra mim era muito sério. Eu levava aquilo como quem escreve um testamento. E juro, algumas notas exigiam reflexão profunda.
No meu quarto, beeeeeeem alta em cima da estante, estava a tv. E eu, hipnotizado pela Marquês de Sapucaí. Eram madrugadas mágicas. A televisão mostrava a comissão de frente e eu já anotava mentalmente: "Sincronia ótima, mas como não é da minha escolha, 9,2.". A bateria começava e meu coração acelerava junto - de verdade - com a cadência. Se a paradinha encaixasse, vinha 10.
Aquela prancheta virou símbolo dessa época da minha infância. Um pedaço de madeira e papel onde eu despejava meu amor pelos desfiles das escolas de samba, pelo espetáculo, pela estética e, claro, pela sensação de que eu também fazia parte daquilo — nem que fosse só uma criança em seu quarto.
Com o tempo, a prancheta ficou de lado, mas a paixão não.Hoje, eu entendo que aquela brincadeira era, na verdade, o nascimento de um olhar. Um olhar que observa o detalhe, que valoriza o esforço, que entende que por trás de cada fantasia há mãos calejadas, histórias esquecidas, sonhos gigantes.
E talvez seja por isso que sempre, até hoje, quando vejo uma escola entrando na avenida, ainda sinto um friozinho na barriga. Porque dentro de mim, não tenham dúvida. ainda existe o menino com a prancheta, esperando o próximo quesito, pronto pra dar 10... ou 9.8, se eu não gostasse do refrão.




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