Uma crônica sobre o cara
- Igor Schulenburg

- 4 de ago.
- 3 min de leitura

No gancho do último post, vamos falar mais um pouquinho sobre I Play Rocky. Em novembro, estreia o filme de Peter Farrelly que conta como Sylvester Stallone, um ator falido de 1975, escreveu Rocky em três dias e recusou uma fortuna pra vender o roteiro, porque só aceitava se ele mesmo fizesse o papel principal.
Antes de falar do filme, uma pergunta que eu não consegui responder direito: que gênero é esse?
Não é remake — não está refilmando Rocky. Não é biografia no sentido tradicional — não cobre a vida do Stallone, cobre uma janela de meses. E não é apenas um "making of" dramatizado, porque tem uma sacada que muda tudo: o filme conta a história da produção de Rocky usando a estrutura narrativa do próprio Rocky. Um azarão sem chance nenhuma, enfrentando um sistema muito maior que ele, tentando aguentar até o fim.
Existem primos disso — Ed Wood, O Artista do Desastre, Mank, The Offer. Mas nenhum deles vai tão longe na imitação da forma. Ainda não inventaram o nome pra isso. Talvez "biografia espelhada". Talvez nada. Mas com a nossa mania de rotular, vai ver sou eu que não vi uma categoria que talvez já seja até oficial pra esse "nicho".
O que mais me interessa nessa história não está no trailer.
Stallone não tem envolvimento oficial no filme. Não produziu, não escreveu, não participou. Está de fora. A única manifestação dele foi repostar o trailer nas redes — um aval silencioso, à distância. É uma homenagem feita por terceiros, aceita com um aceno de cabeça. E isso me levou a olhar pra relação dele com a Academia de Cinema. E a história não para de melhorar.
Em 1977, Rocky recebeu dez indicações ao Oscar e ganhou três: Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Edição. Bateu Taxi Driver, Network e Todos os Homens do Presidente — um dos anos mais fortes da história do cinema. Stallone foi indicado a Melhor Ator e Melhor Roteiro Original. Entrou pra um grupo de três pessoas na história que conseguiram ser indicadas às duas categorias pelo mesmo filme — os outros dois eram Chaplin e Orson Welles. Perdeu as duas.
E tem um detalhe daquela noite que é quase roteiro. Enquanto Hollywood inteira desfilava de smoking, Stallone apareceu de camisa de colarinho grande, sem gravata, com a camiseta branca de trabalhador aparecendo por baixo. A imprensa achou que era provocação, desrespeito, afronta. Não era. A gravata-borboleta dele tinha quebrado no caminho. Anos depois, ele contou que teria amarrado um cadarço no pescoço se soubesse que aquilo viraria assunto.
Trinta e nove anos se passaram.
Em 2016, ele voltou a ser indicado — Melhor Ator Coadjuvante, por Creed, interpretando o mesmo Rocky Balboa, agora velho e doente. Era o favorito absoluto. Tinha ganho o Globo de Ouro e o Critics' Choice. Os principais analistas davam a vitória como certa. Perdeu para Mark Rylance.
O irmão dele, Frank, explodiu publicamente. Chamou a Academia de vergonhosa, disse que era a terceira vez que roubavam o Sly, perguntou "Mark quem?". E o próprio Stallone teve que sair pedindo desculpas em nome do irmão, explicando que ele era passional e protetor demais. A reação dele mesmo foi outra.
Postou uma foto sorrindo, de smoking, com uma legenda curta: "A todos os 'Rockys de verdade' do mundo, por favor, segurem seus sonhos. Nunca cedam, nunca desistam, nunca abandonem." E teve mais, naquele mesmo ano. Era o auge do #OscarsSoWhite, e Stallone chegou a cogitar boicotar a cerimônia — não por causa dele, mas em solidariedade a Ryan Coogler e Michael B. Jordan, o diretor e o protagonista de Creed, ignorados pela Academia. Ele perguntou ao Coogler se devia ir. Coogler disse que sim, que queria o filme representado. Ele foi.
Três indicações ao Oscar. Nenhuma estatueta.
E saca só: I Play Rocky tem tudo pra entrar na temporada de prêmios. Farrelly já ganhou Melhor Filme com Green Book. A data de estreia é a janela clássica de campanha. O tema é irresistível pra Academia, que adora premiar filmes sobre o poder do cinema.
Ou seja: existe uma chance concreta de a Academia premiar um filme sobre o homem que ela nunca premiou.
Um ator interpretando Sylvester Stallone pode subir naquele palco e receber a estatueta que Sylvester Stallone nunca recebeu. Não sei se isso é justiça poética ou ironia cruel. Talvez seja as duas. Mas sei de uma coisa: se acontecer, o cara que ficou de fora vai postar alguma coisa gentil nas redes, desejando o melhor pra todo mundo. Porque foi exatamente isso que ele escreveu, cinquenta anos atrás, sobre um lutador que não precisava ganhar a luta. Só precisava aguentar de pé até o fim.


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